URA resolutiva no onboarding
Como construí do zero uma URA resolutiva que reteve 10pp a mais de ligações no canal automatizado — onde antes existia apenas um tubo direto pro atendente.
-24% na operação humana receptiva. +10pp de retenção no canal automatizado. Uma URA que não existia — construída do zero, validada em A/B controlado, e desenhada pra resolver antes de transferir.
Contexto
Quando um cliente da Nio liga durante o período de instalação, ele entra na URA — o sistema de resposta de voz que deveria ser a primeira linha de atendimento. Deveria.
Na prática, a URA de onboarding da Nio não fazia nada. O cliente digitava o CPF, ouvia “fique tranquilo, vou te transferir” e entrava na fila do atendimento humano. Independente do cenário — dúvida sobre agendamento, confirmação de visita, remarcação — o destino era o mesmo: fila de espera, atendente, custo operacional.
O volume era de mais de 600 ligações por dia sobre instalação. 96% dessas ligações tinham intenção de resolver algo relacionado a agendamento. E a resolutividade da URA era zero — benchmark de mercado fica entre 40% e 60%; a Nio estava em 0%. Era um canal sem inteligência: apenas transbordo.
Não era uma URA ruim. Era uma URA que não existia como produto. Era um tubo.
O ponto de partida
O insight veio de uma observação simples: nos outros canais — WhatsApp, app — nós já resolvíamos parte dessas demandas de forma automatizada. O cliente conseguia confirmar visita, acompanhar status, reagendar. Mas quem ligava, que representava um volume diário expressivo, caía direto no humano sem nenhuma tentativa de resolução.
A pergunta não era “como melhorar a URA”. Era “por que esse canal não oferece o que os outros já oferecem?”.
Mapeei o volume, validei o custo com o time de operações e construí o business case que dimensionava a oportunidade. A maior fatia das ligações — quase 78% — vinha de clientes com pedido liberado pra instalação. Era o grupo com maior potencial de resolutividade automática: confirmar agenda, informar janela de horário, lembrar documentação. Coisas que não precisam de humano.
A hipótese
Se o cliente que liga durante a instalação recebe opções funcionais na URA — confirmar agendamento, ouvir status, resolver pendências — uma parcela relevante dessas ligações pode ser resolvida sem transferência pro humano.
Não estávamos falando de um menu reorganizado. Estávamos falando de criar funcionalidade onde não existia nenhuma. E o approach foi faseado: em vez de construir tudo de uma vez, priorizei por impacto e viabilidade técnica.
O que construí
Desenhei uma URA resolutiva inteira, do zero. A árvore foi estruturada pra identificar o contexto do cliente (pedido agendado ou pendenciado) e oferecer ações reais:
- Confirmar agendamento: o cliente ouve data e janela de horário e confirma direto na URA
- Reagendar: três opções de data disponíveis
- Status do técnico: “já saiu, fica de olho no WhatsApp”
- Lembrete de documentação: “não esquece o RG”
- Transferência pro humano quando o caso é complexo demais pra automação

O rollout foi planejado em fases de desenvolvimento. A primeira entrega foi a vocalização do agendamento — MVP mínimo pra validar a tese de que o canal podia reter ligações. As fases seguintes adicionariam vocalização de pendenciamento, status de execução do serviço e reagendamento.
Como validamos
Rodamos um A/B controlado com split de 50% do tráfego total:
- Grupo controle: URA original — cliente ouvia a vocalização genérica e ia direto pro atendente (contenção 0%)
- Grupo piloto: URA nova — cliente ouvia as opções funcionais antes de qualquer transferência
A divisão era aleatória: metade de todo cliente que ligava com instalação pendente entrava no piloto. Isso eliminava viés de horário, perfil ou tipo de demanda.
Dentro do grupo piloto, dos clientes com pedido agendado, 27% chegaram na vocalização do agendamento. Desses, 5,7% confirmaram o agendamento direto na URA — sem falar com ninguém. Outros 15% ainda pediram atendente, e 4% desligaram sem confirmar (mas potencialmente motivados pela informação que já tinham recebido).
Resultados
O piloto reteve 57,3% das ligações na URA, contra 47,9% do grupo controle — um ganho de +10pp de retenção no canal automatizado.
Na prática, isso significou -24% na operação humana receptiva: um quarto das ligações que antes caíam direto no atendente passaram a ser resolvidas no próprio canal.
No grupo de pendenciamento, o resultado foi ainda mais expressivo: a vocalização de pendência salvou 9,8% das ligações desse segmento. O grupo controle, sem nenhuma funcionalidade, salvou 0% — porque a comparação é entre ter e não ter, não entre versões.
| Métrica | Controle | Piloto |
|---|---|---|
| Retidos na URA | 47,9% | 57,3% |
| Diferença | — | +10pp |
O que o número não conta
O dado mais revelador do diagnóstico não veio do A/B. Veio antes: cerca de 45% dos clientes que ligavam tinham algum pendenciamento. Ou seja, a maioria não ligava pra confirmar — ligava porque algo estava travado. E a URA antiga simplesmente jogava todo mundo na mesma fila.
A URA nova começou a separar esses fluxos. Quem tinha agendamento confirmado recebia informação e resolvia. Quem tinha pendência era notificado e orientado. A comparação não é “URA boa vs. URA ruim” — é “canal resolutivo vs. canal que não existia”.
O outro dado de segundo nível: de quem já tinha agendamento, a maioria queria reagendar. Isso validou que reagendamento deveria ser a funcionalidade de maior prioridade nas fases seguintes — não por suposição, mas por dado de comportamento real na árvore.
Impacto sistêmico
O business case mapeou o impacto esperado da URA resolutiva em quatro métricas do onboarding, não só no canal de voz:
| Métrica | Baseline | Meta |
|---|---|---|
| Confirmação de visita | 59% | 80% |
| Contact rate operação | 18% | 10% |
| Eficácia de instalação | 71% | 80% |
| Cancelamento de vendas | 26% | 17% |
A tese é que uma URA que confirma agendamento ativamente reduz casa fechada; uma que resolve sem transferir reduz contact rate; uma que vocaliza itens essenciais melhora eficácia da visita. Cada funcionalidade da árvore foi desenhada conectada a uma dessas alavancas — não como feature isolada.
Próximos passos
A vocalização de agendamento validou o modelo. O roadmap de desenvolvimento continua com as fases seguintes: vocalização de pendenciamento, status de execução do serviço e reagendamento por voz.
O próximo movimento maior é a URA de Suporte — opção 2 do menu principal, que concentra um volume de chamadas significativamente maior que a de instalação. A intenção é replicar a mesma metodologia: discovery antes de execução, entender o que o cliente realmente precisa quando liga pra suporte técnico, e construir funcionalidades que resolvam antes de transferir.
Time
Eu como Lead Product Designer e a Especialista de Jornada de Onboarding compomos o núcleo da iniciativa, com apoio dos times de Plataforma Conversacional (URA), Operações e Desenvolvimento.